Entrevista à Arquiteta Paisagista Cristina Castel-Branco

No seguimento da adjudicação do projeto de restauro da vegetação dos Jardins Garcia d’Orta, a Arq.ª Cristina Castel-Branco e a sua equipa formada por Maria João Cabral, Sandra Mesquita e Francisca Pinto da Costa, tiveram a amabilidade de nos conceder uma pequena e interessante entrevista onde nos falam sobre os Jardins e as suas expetativas quanto ao futuro dos mesmos. Recorde-se que a ACIPN sempre defendeu e tudo fez para garantir que os Jardins Garcia de Orta fossem reabilitados à sua beleza e rigor original por esta equipa que os concebeu há 20 anos.

20 anos depois como encontram hoje os Jardins Garcia d’Orta? Os jardins Garcia d’Orta tiveram uma “infância feliz”, ou seja, mal se inauguraram tiveram visitas permanentes, sempre diversas e foram visitados e gozados intensamente durante a Expo’98. Por outro lado foram bem tratados, regados, mondados e adubados durante os seus primeiros dez anos com a Parque Expo a fazer crescer em boas condições muitas plantas subtropicais que pela primeira vez em Lisboa se viram plantadas. 20 anos depois sentimos que as  árvores  “se portaram “ muito bem e cresceram melhor do que, como projetistas da parte vegetal dos jardins, tínhamos sonhado. A parte de arbustos e herbáceas foram vivendo mais mal que bem,  e precisam vivamente de ser renovados. Esperamos que venha a acontecer com o projeto de restauro que em breve iremos implementar.

Existem espécies que de algum modo as tenham surpreendido pela forma como se adaptaram ao local? A adaptação das plantas dos JGO, a maioria proveniente de climas tropicais quentes e mais húmidos, foi na sua globalidade muito surpreendente. O leque de plantas habitualmente cultivadas nos jardins portugueses é relativamente restrito e de influência centro-europeia, embora muitas plantas sejam de origem asiática. Nos JGO experimentaram-se plantas que não são comuns nos nossos jardins, talvez mesmo plantas que nunca haviam sido cultivadas na Europa fora dos jardins botânicos. O atrevimento da equipe das plantas deve-se provavelmente à sua juventude e à capacidade de risco, mas conseguiu-se, de facto, experimentar e inovar. Hoje não seríamos capazes de fazer o mesmo. O sucesso mais surpreendente foi provavelmente o do cedro-cheiroso (Cedrela odorata), uma árvore da Amazónia muito apreciada pela sua madeira e usada em perfumaria. Outras surpresas foram a noz-da-índia (Aleurites moluccana), a amoreira-de-papel (Broussonetia papyrifera) e várias espécies de figueiras tropicais.

E o que mais as desilude no estado dos Jardins hoje em dia? Desilude-nos o facto de se ter desperdiçado uma oportunidade de dar a conhecer o potencial de utilização de espécies de plantas de elevado potencial ornamental, perdidas por falta ou inadequação de manutenção ao longo dos últimos dez anos. A adaptação espantosa de inúmeras espécies deveria ter sido objecto de alguma reflexão e poderia ter sido uma oportunidade de obter dados de crescimento de plantas exóticas enriquecendo o jardim como base para futuros estudos e projetos. Foi pena também não ter havido empenho colectivo na preservação de uma coleção botânica, na sua maioria fruto de doações de jardins botânicos nacionais e internacionais, que sem qualquer interesse económico e com espírito de colaboração, nos possibilitaram a construção de um jardim magnífico. Perdeu-se como atrás foi dito toda a componente herbácea da coleção, assim como grande parte dos arbustos. A oferta generosa dos doadores merecia ter sido encarada com maior respeito e celebrada com mais divulgação.

O que distingue os Jardins Garcia d’Orta dos outros jardins? Os JGO foram criados a partir de um tema: a importância que os portugueses tiveram na viagem de plantas agrícolas e ornamentais através do mundo. Apesar de não ser um Jardim Botânico, o seu projeto desenvolveu-se a partir de uma vasta lista de plantas, escolhida por vários botânicos muito conhecedores de cada região, a partir das quais se tentou recriar ou fazer alusão aos seus habitats ou modos de cultivo. O Jardim está dividido em cinco talhões que representam nove regiões do mundo, para as quais foram escolhidas plantas-protagonistas que contam a história das principais trocas e viagens. O público era informado de todas estas histórias de plantas através de um filme apresentado em 5 quiosques multimédia. Por exemplo o café, que esteve plantado no talhão de S. Tomé, é originário de África mas foi levado pelos portugueses para o Brasil, que é atualmente o maior produtor de café do mundo. O piripiri foi trazido do Brasil para a India pelos Portugueses. Estas histórias foram escritas e transformadas no produto multimédia, que poderia agora ser transformado em aplicações e enriquecer a visita aos jardins. Sobretudo agora que as árvores já cresceram e que os jardins vão ser restaurados.

Sabemos que a Cristina escolheu o nome para os Jardins. Porquê a homenagem a Garcia d’Orta? Garcia de Orta (1501-1568) foi um humanista, um homem com um verdadeiro espírito científico renascentista que escreveu o primeiro livro impresso na India depois da invenção da Gutenberg (“Colóquios dos Simples e Drogas da India”). Eu tinha defendido a minha tese de Doutoramento “Os jardins dos Vice-reis” no dia em que fui chamada para a Expo’98 (6 de Janeiro de 1993) e tinha estudado a fundo a troca de plantas, medicinais, úteis e ornamentais na história da arte dos jardins e sobretudo apercebi-me do muito que os portugueses tinham contribuído para esse efeito. Deparei-me com uma ausência total do registo dessa contribuição portuguesa para o mundo. Era como se os Ingleses e os Holandeses tivessem feito tudo. Ora antes deles estávamos nós nos Oceanos e era preciso devolver a verdade à História. Pensei: “vou submeter este tema ao Conselho de Administração, propondo um jardim “. Assim foi, e foi logo aceite. A escolha daquela faixa de terreno também foi minha no início do Plano do recinto quando ainda não estava o Arq. Manuel Salgado. Celebrámos assim a história das descobertas dos portugueses através de um jardim. Os JGO testemunham que nós, Portugueses, contribuímos para a primeira globalização mundial.

Consideram que se tem aproveitado todo o potencial dos Jardins Garcia d’Orta? De que forma poderia isso ser feito? Os JGO serviram plenamente uma das suas principais funções, ou seja, são, de facto, jardins e não apenas “espaços verdes” onde as pessoas passeiam, as crianças brincam e molham os pés, os namorados têm bancos e recantos para namorar e o Tejo é visto através de um cenário verde de grande beleza. O potencial científico dos JGO, esse não foi aproveitado de forma plena, pelo que a experiência ficou sem registo. A degradação da coleção botânica é recuperável, e será essa a matéria do nosso projeto de restauro, mas não será na sua totalidade. Ainda muito pode ser feito e estamos cheias de vontade de o fazer. As formas de manutenção, gestão e uso futuro destes jardins merecem alguma reflexão, pois a sua especificidade não é compatível com o modelo instituído nos últimos anos. Apontamos para um esforço de colaboração com benefícios mútuos, entre os organismos públicos responsáveis, Junta de Freguesia e CML, e os jardins botânicos. Haverá que pensar em formas de mecenato para que a história da viagem das plantas venha ao de cima e se destaque no mundo internacional dos jardins que tanto se desenvolveu nos últimos 20 anos. A informação e comunicação com os utilizadores dos jardins são essenciais como forma de divulgação e explicação de diversos aspectos do tema destes jardins. Atualmente, a tecnologia disponível permite a divulgação de conteúdos de forma muito fácil e pouco dispendiosa. Desenvolver a comunicação do tema dos jardins poderá dar um impulso significativo para que se aprecie melhor este espaço.

O que podemos esperar do projeto de requalificação? Os planos de plantação serão fiéis aos do projeto inicial? Os novos planos de plantação serão certamente fiéis ao conceito inicial do jardim, mas não serão iguais ao projeto inicial. As primeiras plantações foram realizadas com o objectivo de criar um jardim utilizável num curto prazo, com densidades invulgarmente elevadas e usando as plantas doadas por jardins botânicos dos vários continentes. Com o projeto de requalificação parte-se, não de solo nu, mas de um jardim com muitas plantas bem desenvolvidas que irão recriar uma coleção botânica representativa da viagem das plantas através dos Oceanos abertos pelos portugueses. Será necessário corrigir as densidades de plantação elevadas, repondo as plantas perdidas devido a problemas de manutenção e substituindo aquelas que sendo plantas de sol passaram a estar à sombra pelo crescimento de 20 anos das árvores que se deram bem.

Como gostariam de ver os Jardins daqui a 20 anos? Gostariamos que os jardins se mantivessem fiéis ao seu tema de origem, com uma coleção de plantas ainda maior do que a atual, resultante de uma progressiva adaptação às alterações climáticas que forem ocorrendo, eventualmente com a criação de “redomas invisíveis e impercetíveis” onde serão recriadas as condições climáticas do habitat de cada planta. Seria desejável que estivessem disponíveis, associados ao jardim, aplicativos que fornecessem toda a informação sobre as plantas existentes, a sua história e o papel dos portugueses nessa história; ou que permitam, por exemplo, viagens sensoriais ao passado do jardim e aos locais de origem das plantas nele existentes ou onde o seu cultivo foi desenvolvido.

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