A “cuidadosa renovação” dos Jardins Garcia de Orta

Os Jardins Garcia de Orta têm caraterísticas singulares que os distinguem dos restantes jardins da cidade de Lisboa e do país. Criados para responder ao desafio da Expo’98, representam a viagem através dos Oceanos das plantas que os Portugueses trouxeram e trocaram entre os 5 continentes. Foram precisamente estas plantas que acabaram expostas no recinto da Expo’98, numa área de 1,8 hectares junto ao Tejo, tendo a grande maioria sobrevivido, até hoje, apesar de originárias de zonas climáticas muito diversas e da falta de manutenção que os jardins sofreram nos últimos anos.

A equipa que a partir de 1993 começou a preparar a escolha das plantas, pertencia ao Instituto Superior de Agronomia (ISA) e era chefiada pela Prof. Arquiteta Cristina Castel-Branco. Estiveram envolvidos especialistas na Flora de Macau, Angola, Moçambique, S. Tomé, Cabo Verde, Brasil e Timor.

Durante quatro anos, ao abrigo de um protocolo assinado com a Parque Expo, a equipa trabalhou para garantir a escolha correta das espécies que se aclimatassem a Lisboa, viajou para recolher e preparar as plantas para a viagem, acompanhou a quarentena no Jardim Museu Agrícola Tropical em Belém, desenhou os Planos de Plantação, preparou os cadernos de encargos para o concurso de plantações e rega e acompanhou a obra entregue à empresa Viveiros do Falcão. Por sua vez, o desenho do jardim, do ponto de vista construtivo, foi entregue pelo Arq. Manuel Salgado ao Arq. João Gomes da Silva, ficando toda a parte de plantações da responsabilidade da Arq. Cristina Castel-Branco. O que foi feito naquele espaço simbólico realizou-se, assim, em coautoria de criação.

No ano passado, a ACIPN tomou conhecimento de que a Junta de Freguesia do Parque das Nações (JFPN) preparava a requalificação dos Jardins Garcia de Orta com o Arq. João Gomes da Silva, a quem atribuía, indevidamente, a autoria e conceção do projeto original. Estranhando esta posição, bem como o facto da Arq. Cristina Castel-Branco não estar envolvida, a ACIPN questionou o Presidente da JFPN, José Moreno, primeiro por carta, que não teve resposta, e posteriormente na Assembleia de Freguesia de 29 de junho. José Moreno afirmou então que os trabalhos em curso visavam apenas a “reparação de estruturas” e que só depois se passaria à plantação de novas espécies, confiando que “o Arq. João Gomes da Silva saberia o que fazer e quem contactar se necessário”.

Informada pela ACIPN sobre o que estava a suceder, a Arq. Cristina Castel-Branco decidiu contactar o Presidente da JFPN. Após algumas conversações, foi-lhe solicitada a apresentação de uma proposta para os Planos de Plantação, a parte essencial deste projeto de restauro e que pressupunha a reposição das plantas originais de 1998. De acordo com a Arq. Cristina Castel-Branco, essa proposta, que contou com a colaboração de boa parte da equipa de origem (João Cabral, Sandra Mesquita, Francisca Pinto da Costa, entre outros), foi submetida à JFPN a 21 de outubro de 2016. No entanto, em dezembro, foi-lhe comunicado pelo vogal dos Espaços Verdes da JFPN, Luís Lucas Lopes, que não poderiam aceitar a sua proposta visto já terem um contrato de avença assinado com a Global do Arq. João Gomes da Silva. É-lhe ainda transmitido que nos Planos de Plantação do arquivo surge o nome de João Gomes da Silva como o autor do projeto, o que não corresponde à verdade e pode facilmente ser comprovado nos próprios Planos e em diversas publicações oficiais da Expo’98.

Se o comportamento da JFPN neste processo é criticável e denota bastante falta de profissionalismo, também a atuação do Arq. João Gomes da Silva merece alguns reparos. Conhecendo todo o historial destes jardins, tendo inclusive assumido uma coautoria do projeto expressa publicamente no site da Global, não nos parece eticamente correto que tenha elaborado os Planos de Plantação (componente que não era da sua responsabilidade) e os tenha entregado à JFPN sem os discutir sequer com a Arq. Cristina Castel-Branco, a quem só deu conhecimento, perguntando se estava de acordo, quando as plantações já decorriam no terreno.

Falamos de duas figuras reconhecidas da prática profissional e do ensino, com muita responsabilidade dentro da profissão da Arquitetura Paisagista. São, entre outros, os continuadores do Prof. Caldeira Cabral, dos Arquitetos Ribeiro Telles, Sousa da Câmara, Viana Barreto, Edgar Fontes, Ilídio de Araújo, e tiveram ambos cargos relevantes na Associação Portuguesa de Arquitetos Paisagistas. A ética profissional deveria ser exemplar nas suas ações e relações enquanto arquitetos paisagistas e, neste caso, parece não estar a ser.

Por sua vez, a JFPN tinha aqui uma oportunidade única de, 20 anos depois, ver os Jardins Garcia de Orta reabilitados à sua beleza e rigor original bem como à história que contam através das plantas e da celebração de Portugal no mundo. Ao descartar o trabalho da equipa de botânica e arquitetura paisagista que os concebeu e que detém os planos originais destes jardins, reduz um espaço único a um jardim normal e sem história.

Talvez por isso não seja de admirar que as plantas que já começaram a ser plantadas no jardim de Coloane (Macau) e Goa não respeitam os planos de plantação iniciais e desprezem todo o trabalho científico desenvolvido durante os 4 anos que antecederam a Expo’98. Apesar de a JFPN falar numa “cuidadosa renovação”, a opção agora feita é por plantas iguais às existentes em tantos outros locais. Perde-se com elas a história e o reconhecimento do momento fundacional dos Jardins Garcia de Orta e da celebração dos Oceanos na Expo’98.

 

[Créditos fotográficos: “O Livro Verde / The Green Book – Expo’98”]

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